Ferox Cap. 5
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Ferox

Capítulo 5 — 5-Praeparatio

Num flashback, um garoto está sendo importunado por meninos mais velhos em um parque simples e antigo, em uma praça. Esse garoto era Axel quando criança. Ele era menor que as crianças da idade dele e franzino; mesmo não sendo, parecia debilitado.
Axel é jogado no chão e ridicularizado pelos garotos, que riem e jogam lama nele. O pequeno Axel chora, sem ninguém para ajudá-lo.
Até que, de trás, um garoto acerta uma pedra na cabeça de um dos mais velhos, que solta um gemido de dor. Ele se vira — e ali está Zaio, com um estilingue na mão, já recarregando.
— Zaio: Hey, seus idiotas... deixem ele em paz!
Um dos mais velhos se irrita e corre para bater em Zaio, mas Zaio acerta uma pedra bem na testa dele, fazendo o garoto ficar zonzo e cair sentado no chão, chorando.
Zaio já coloca outra pedra no estilingue, aponta para o maior dos garotos e puxa com força. Os outros olham aquilo e correm dali.
Zaio solta a pedra, coloca o estilingue no pescoço e vai até Axel.
— Zaio: Hey... cê tá legal?
Axel, ainda assustado, se limpa da lama e olha pra ele.
— Axel: ...é... um pouco... obrigado.
Zaio estende a mão para o garoto, com um sorriso.
— Zaio: Prazer, me chamo Zaio... qual seu nome?
Axel ainda parece desconfiado, mas aceita a ajuda e se levanta.
— Axel: Prazer... sou Axel.
— Zaio: Eu nunca te vi por aqui. Você é novo?
Axel esfrega a parte de trás da cabeça, falando baixo:
— Axel: Não muito... cheguei aqui faz uns dois meses... é que eu saio pouco pra brincar... e quando saio... isso acontece...
Zaio olha pra ele, ainda sujo de lama, esfrega o queixo e pensa.
— Zaio: Hey, tive uma ideia. Vem aqui!
Zaio puxa Axel pelo braço e sai correndo pela praça com um sorriso bobo, até chegar a uma mangueira jogada no chão, com a ponta virada pra cima.
— Zaio: Quando eu me sujo brincando, pra não tomar bronca, eu ligo essa torneira e tomo um banho. A sujeira sai... pelo menos um pouco. Fica aí embaixo, vou ali ligar.
Axel, ainda meio perdido e assustado, tenta falar algo, mas Zaio já corre e liga a mangueira. A água sobe com força e cai como um chuveiro sobre Axel.
— Zaio: Pronto! Agora é só esperar sair a sujeira... eu sou um gênio, né?
Axel olha para as mãos, vendo a lama escorrer. Ele baixa a cabeça, o cabelo cobrindo parte do rosto, e fala com dúvida:
— Axel: Por quê...? Por que você me tratou assim?
Zaio o olha confuso.
— Zaio: Assim como?
— Axel: Me tratou como um amigo... como uma pessoa... eu sempre sou tratado como estranho... mal visto pelos outros garotos... e você vem assim, me ajudando... sem me tratar mal... é estranho...
Zaio o olha com confiança, ainda animado.
— Zaio: Você é alguém normal, igual a mim. E eu sei que, se eu estivesse naquela situação, ia querer alguém pra me ajudar... pra me tratar bem. Todo favor passado tem uma dádiva futura... foi o que minha mãe me disse.
Axel olha pra ele e solta uma leve risada, ainda sem entender completamente aquele garoto estranho.
Ele sai debaixo da água.
— Axel: Você é a pessoa mais estranha que eu já vi... mas... obrigado.
Zaio ri, aceitando aquilo como elogio. Ele pega o estilingue e mostra pra Axel.
— Zaio: Bora ver quem é melhor de mira? Eu aposto 1 real que eu sou melhor!
Zaio diz, rindo.
[Corte para o presente]
Zaio acorda com um cachorro lambendo seu rosto. Ele resmunga, assustado:
— Zaio: Pubby, porra... não!
Ele se senta, pega o cachorrinho e o encara. O animal retribui com a expressão mais fofa do mundo. Zaio suspira.
— Zaio: Pubby... Pubby... você tem sorte de ser tão pequenininho e fofo, porque o que você já tirou onda da minha cara não tá escrito...
Ele o coloca no chão com cuidado e vai até a cozinha. Lá, vê Dante mexendo no celular, enquanto Axel prepara algo na panela.
— Zaio: Dante, cê tem que tomar vergonha nessa cara... botar a visita pra fazer comida... que feio.
Dante o olha, entediado.
— Dante: Se você não quer comer pedra ao molho, fica quietinho, pivete... o Axel manda muito nas panquecas.
Axel ri levemente, ainda na cozinha.
— Axel: Zaio, toma cuidado... hoje começa seu treino, sabia? A cada zoação com o Dante, é mais um exercício enfiado na sua goela.
Zaio lembra disso e engole seco. Se senta com um sorriso nervoso.
— Zaio: O Dante tá mais que certo... um homem como ele não merece menos, né?
Dante toma um gole de café e o encara sério.
— Dante: Você pode parar de falar merda, porque eu vou lembrar de cada “velhote” que saiu dessa sua boca suja, Zaio...
Axel coloca as panquecas na mesa, quebrando o clima.
— Axel: Tá pronto, podem comer.
— Zaio: Aí sim... tu manda muito, mano. Salvou minha barriga da miséria.
Zaio coloca mel na panqueca e começa a comer, mais animado. Axel se senta ao lado, enquanto Dante se junta do outro. Depois de algumas mordidas, Dante os encara.
— Dante: Me digam... além dos planos de ontem, o que têm em mente agora? Como pretendem seguir com a vida de vocês?
Zaio engole e responde, pensando.
— Zaio: Bem... amanhã eu volto pro colégio, como qualquer segunda-feira normal. Mas se eu ver que não dá mais, vou ter que tomar outro rumo... pra não morrer — ou pior, machucar gente inocente. E você, Axel?
Axel pensa por um momento. Seu olhar pesa com as lembranças do dia anterior, mas ele respira fundo.
— Axel: Vou fazer o mesmo... vou anotar tudo que você pediu e te ajudar no que estiver ao meu alcance. O resto... o tempo vai dizer.
Dante concorda com a cabeça, e os três continuam comendo.
Mais tarde, cerca de duas horas depois
Zaio está na sala, assistindo TV, entediado. Axel aparece e faz um gesto para que ele o siga. Zaio estranha, mas levanta e vai atrás.
Eles chegam à varanda. Axel se senta numa cadeira, escrevendo algo numa mesa, e aponta para frente.
Dante está ali, usando roupas mais leves — um short e uma regata.
Zaio se aproxima. Dante fala:
— Dante: Zaio, como você pediu, eu vou te ensinar o que sei. Mas não espere moleza. Se você não aprender, vai ser esmagado como uma lagarta no chão. Entendido?
Zaio concorda com a cabeça.
— Dante: Me diga... você tem experiência com luta?
— Zaio: Não... só briga de rua, nada técnico.
Dante sorri, com arrogância.
— Dante: Então vamos resolver isso agora. A regra é simples: nada de golpe baixo nem trapaça. De resto... pode vir com tudo, fedelho.
Zaio sorri e avança com uma voadora. Dante desvia facilmente.
Zaio cai de costas no chão.
— Dante (rindo): Patético... é só isso?
Zaio se levanta e tenta um gancho. Dante segura seu punho e gira, causando dor.
Zaio cai de novo.
— Dante: Zaio... se você quiser encostar em mim um dia...
Ele encara Zaio.
— Dante: ...vai ter que usar o músculo menos desenvolvido.
Pausa.
— Dante: O cérebro.
Axel, ao fundo, continua anotando e desenhando a forma de lobisomem.
[Corte]
Robert volta à sala de Atena, irritado, mas controlado. Bate na porta e entra.
— Robert: Senhorita Atena... más notícias.
Atena o observa sem expressão.
— Atena: Diga.
— Robert: Passei pelo local onde o portador do Predatory Core estaria... só encontrei corpos e sangue. Nenhum sinal dos alvos.
Atena anota algo no notebook.
— Atena: Interessante... o portador sobreviver não me surpreende. Mas os outros dois... isso muda as coisas.
Ela se levanta e se aproxima dele.
— Atena: Percebo que sua motivação vai além do portador.
Ela começa a caminhar.
— Atena: Venha comigo.
Robert a segue pelos corredores brancos e frios.
Eles chegam à área de testes. Atena aponta para um compartimento com uma substância congelada.
— Atena: Isso é o protótipo 00.45. O mais próximo que temos do Predatory Core.
Ela o encara.
— Atena: Pode te tornar tão forte quanto o portador... talvez mais. Mas o risco é seu.
Robert encara a substância, dividido.
— Atena: Claro... você pode recusar. E continuar sendo irrelevante.
Silêncio.
— Robert: ...EU ACEITO!
Ele respira fundo.
— Robert: Só me dê poder... eu termino isso.
Atena sorri.
— Atena: A partir de agora... o próximo passo é seu.
[Corte]
Já é noite.
Zaio está deitado na varanda com gelo no ombro, falando ao telefone.
— Zaio: Mãe? Alô... desculpa a demora... foi corrido esses dias...
— Sim, comi direitinho... vou voltar com o Axel... relaxa, tô bem...
— Foi legal aqui... te amo, mãe... beijo.
Ele desliga e se levanta.
— Zaio: Bora chamar um táxi... eu ainda tô quebr—
Dante aparece com um copo d’água.
— Dante: Relaxa, eu pago o táxi. Meu carro virou peneira...
E melhora logo, Zaio. Já cansei de esfregar sua cara no chão.
Ele sai rindo. Zaio fica irritado, mas se controla.
Depois de um tempo, Zaio e Axel vão embora.
Mais tarde, Dante recebe uma mensagem de Robert:
“Vamos conversar amanhã sobre os acontecimentos recentes. Me encontre na cafeteria ao lado do colégio AEF.”