
Ferox
Capítulo 7 — 7-Mater
Assim que Zaio acorda, o cheiro ruim do lixo impregna em seu nariz. Ele tenta se mexer, mas suas pernas não conseguem acompanhar seus comandos. Com esforço, pega o celular no bolso da calça e liga para Axel.
Depois de alguns segundos, Axel atende.
— Axel: Zaio, irmão, você tá onde?... Eu vi lá na frente do colégio... era você, né?
Zaio fala com a voz fraca e abafada.
— Zaio: Se você tá falando da luta lá na frente do colégio... era eu sim... Me destransformei e entrei em uma caçamba de lixo em algum beco daqui perto do colégio... vem logo, e com o Dante... a gente precisa conversar...
Zaio desliga o telefone e seu olhar esvazia, ficando distante e triste.
Algum tempo depois, a caçamba de lixo onde Zaio está se abre, mostrando Axel e Dante. Axel olha para Zaio e já vai de prontidão ajudá-lo a sair da caçamba. Zaio tenta se manter em pé, encostado na parede, e diz para Dante:
— Zaio: Dante... cê veio de carro?... Não dá pra andar não...
Dante o olha sem esboçar nenhuma reação.
— Dante: Eu vim sim... relaxa...
— Axel: Vem, eu te ajudo, Zaio. Vamos pro carro.
Os três entram no carro, e Zaio fala assim que todos estão sentados:
— Zaio: Eu vou sair daqui...
Axel fala surpreso, olhando pelo espelho do carro.
— Zaio: Eu vou parar de frequentar a escola e sair de casa... Eu não posso tentar viver normalmente sem antes arrumar um jeito de voltar a ser normal... Dante, se não for problema, deixa eu morar com você?... Você é a única pessoa que eu sei que tem um lugar pra eu morar sem ser descoberto...
Axel e Dante se olham como se já tivessem pensado nessa ideia antes mesmo de Zaio falar. Dante responde com sua voz séria de sempre, mas sentindo o peso da situação.
— Dante: Você pode, Zaio... mas não pense que serei piedoso ou algo assim... Você vai treinar todo dia, como a gente concordou... De resto, não se preocupe... você não vai morrer de fome não.
Dante solta uma brincadeira leve, e assim que ela sai, um pequeno resquício de alívio surge em Zaio em meio àquele inferno. Mas logo ele volta ao mesmo olhar vazio e diz:
— Zaio: Me levem pra casa... eu mesmo vou explicar tudo pra minha mãe... Eu não quero vê-la preocupada se eu simplesmente sumir... por favor, me levem pra minha casa... eu quero falar com ela...
Zaio fala isso com a voz meio trêmula, mas ainda tentando manter firmeza. Dante e Axel percebem o peso daquelas palavras, e Dante dirige até a casa de Zaio, guiado por Axel.
Assim que chegam, eles batem na porta. A mãe de Zaio abre e o vê daquele jeito após a transformação... sujo, com restos de pele e sangue pelo corpo e um cheiro horrível. Ela leva a mão à boca, assustada e em choque.
Dante coloca a mão no ombro dela e guia Axel com o olhar, indicando para levar Zaio até o quarto. Axel faz isso, deixando Zaio lá para tomar banho enquanto volta para a sala, onde Dante conversa com a mãe dele.
Zaio, com dificuldade, mas agora com mais controle do corpo, toma banho e percebe como seu corpo está mudando. Seus bíceps estão maiores, sua barriga parece mais trincada do que antes, e mesmo que aquilo pareça algo bom, ele só se sente ainda mais triste.
Depois de alguns minutos, Zaio sai do banheiro, vai até a sala e fala com olhar firme:
— Zaio: Mãe... tenho que falar com a senhora... pode vir aqui no quarto...
A mãe de Zaio se levanta, e os dois entram no quarto. Eles se sentam na cama, e Zaio começa a falar olhando para o chão.
— Zaio: Mãe... alguns dias atrás... algo completamente estranho e fora do comum aconteceu comigo... Algo foi injetado no meu corpo... e agora...
Zaio trava por um momento, mas respira fundo e continua:
— Zaio: Eu me transformo em criaturas... e estou sendo caçado há dias... então eu vou fugir... me esconder na casa do Dante até...
A mãe de Zaio abraça a cabeça dele. Leves lágrimas escorrem de seus olhos enquanto ela fala com carinho e uma tristeza que tenta esconder.
— Mãe de Zaio: Filho... o senhor Dante já me contou... Não precisa se segurar ou ser forte... eu sei quando meu homenzinho quer chorar...
Assim que Zaio escuta aquilo, seus olhos se arregalam. Ele perde as forças e começa a chorar nos braços da mãe, abraçando-a forte.
— Zaio: Mamãe... eu tô com medo... eu não quero morrer... eu não sou um monstro... eu não quero viver sozinho que nem um bicho em um zoológico... eu sou um humano... não tenho culpa de ter sido amaldiçoado dessa maneira...
A mãe de Zaio levanta o rosto dele com as mãos, limpa suas lágrimas e fala com um olhar amoroso.
— Mãe de Zaio: Você não é um monstro, meu amor... você é um garoto especial... um garoto que sempre se preocupa com os outros e cuida de quem precisa. Eu sei quantas vezes você guardou os problemas pra si mesmo só pra me ajudar... Você é um homem muito forte... você não é um monstro... você é o herói da mamãe, tá?
Ela termina de secar as lágrimas dele e beija sua testa.
— Mãe de Zaio: Filho, eu já sei do seu plano, já que Dante me contou... Ainda hoje arrume suas coisas e vá... eu vou tentar sempre que puder ir lá na casa do Dante te ver, filho... Obedeça o Dante bonitinho, tá?... A gente deve muito a ele... E não se esqueça: mamãe te ama... e eu sei que no final o meu grande Zaio vai conseguir.
Zaio ainda chora levemente, mas agora sorri, sem tanto medo.
— Zaio: Pode deixar, mamãe... eu vou obedecer aquele velhote... Vou começar a arrumar as coisas, tá?
A mãe de Zaio, ainda com resquícios de lágrimas nos olhos, sorri e, antes de sair, faz um cafuné nele e volta para a sala mais aliviada.
Depois de alguns momentos, Zaio sai do quarto com uma mala e faz sinal para Dante de que está pronto para ir. Dante se levanta e sai da casa, indo até o carro.
Zaio, sua mãe e Axel saem de casa. Zaio dá um último abraço na mãe, e ela diz:
— Mãe de Zaio: Filho, se comporte, tá?... Cuidado, meu bem...
— Zaio: Pode deixar, mãe... se cuida também... eu amo muito a senhora.
Zaio entra no carro de Dante e acena em despedida enquanto o carro vai embora.
Axel observa e comenta:
— Axel: Zaio é um cara realmente forte... eu sempre me impressiono com ele.
— Mãe de Zaio: Ele sempre foi assim... eu espero que tudo se resolva no futuro...
Axel concorda com a cabeça.
— Axel: Bem... tenho que ir. Tenho tarefa de casa pra fazer... até mais, senhora Freya.
Axel vai embora. Freya acena em despedida e entra novamente em casa.
