
Crônicas de Kanh
Capítulo 8 — Seis
Capítulo 6
Tobias está correndo.
Para ser mais exato, está sendo puxado por alguém.
Diante dele, mal enxergando um palmo à sua frente, uma mulher atravessa a floresta.
Gritos. Ele… Ouvia gritos.
“Mãe?” O pensamento dele é acompanhado por uma parada repentina. Pedras se movem e, caindo no precipício a sua frente, vê-las sumir na escuridão faz seu estômago embrulhar.
Sendo agarrado pelo colarinho, ela diz algo a Tobias, não entendendo nada.
Sua face está borrada. Sua voz, abafada. Era como se estivesse debaixo de água. Tudo borra. Tobias vê-se diante de um homem. Seus olhos, vermelhos, analisam-no, procurando algo enquanto seu cabelo prateado, indo até as costas, reluz com a ação de sua aura.
A direita dele, uma garota, provavelmente da mesma idade dele, também o encara. Seu cabelo é rosa, indo até os ombros em fortes ondulações. Seus olhos também são vermelhos, porém em uma intensidade ainda maior, como uma rubi polida.
Eles não são humanos, mas vampiros. É como uma sub-raça dos humanos, assim como os elfos, anões, gigantes, pálidos e bárbaros.
E, mais do que qualquer outra, são odiados.
Tão odiados que são considerados maldições, similares às bruxas.
O local muda novamente. Dessa vez, quem está diante de Tobias é Taylor.
Ele serve um prato de comida para o jovem, mal conseguindo falar. Devia ter uns quatorze ou doze anos. Tremia e segurava os próprios braços como se estivesse com frio. Aquele foi o dia de seu resgate. O jovem sequer lembrava do próprio nome. Tinha sido retirado do rio beirando a morte. Nenhum deles sabia como ele havia sobrevivido.
Mas, no fim, Tobias havia sobrevivido.
“É um sonho.” A conclusão, é acompanhada de um teto. “O teto da minha casa?” Vendo que está coberto, ele se move com dificuldade, retira a coberta, senta e olha à sua volta. Há uma escrivaninha à sua direita, duas cadeiras à esquerda. Nelas, há duas pessoas.
-Ah, é meu antigo quarto. -Ele murmura. Ao seu lado, Laissa e Taylor dormem nas cadeiras perto da escrivaninha. Os dois aparentavam estar ali a muito tempo.
Sua cabeça dói. As memórias estavam fragmentadas. Conseguia se lembrar até a aparição do Numerado.
Apesar disso, ver Laissa faz Tobias suspirar. Seja lá o que aconteceu, ela estava bem.
Levando a mão até o próprio peito, onde o colar dado por Taylor de alguma forma está, o jovem sente uma aura diferente em seu peitoral. Puxando a gola da camisa branca, a enorme cicatriz o lembra do último golpe do Numerado, assim como a aparição do garoto loiro no último instante.
-Como raios eu to vivo? -Colocando a mão sob o coração, um leve grunhido de dor escapa dentre seus dentes. O golpe havia sido muito profundo.
-Hm? -Os olhos de Taylor piscam, o som o acordou. Então, vendo Tobias, sentado, ele levanta de uma vez. -Tobias!
-Que!? -Laissa balbucia e, perdendo o apoio em seu pai, despenca de uma vez. Agarrando a cadeira por reflexo, a fúria atravessa seu corpo. -Pai! O que… -Os olhos dela encontram-se com Tobias. Ela trava, o ar sai de seus pulmões e, puxando-o de volta, ela berra. -TOBIAS! VOCÊ ACORDOU!
Taylor aperta Tobias com tanta força que o jovem sequer consegue se defender. Laissa vai logo atrás, deixando o vampiro sem saber se eles queriam terminar de matá-lo ou abraçá-lo com muita força.
-EU ACHEI QUE VOCÊ TINHA MORRIDO! -Taylor, ouvindo Tobias grunhir de dor, solta-o antes de pôr a mão na testa dele que, ainda sendo abraçado por Laissa, começa a ficar vermelho. O cavaleiro não estava confortável com a invasão de seu espaço pessoal. -Tem noção do quão preocupado eu fiquei!? Mas tu tá vivo! Nem febre têm! Amém!
-Não faz isso de novo, por favor. -A loira murmura, com a voz sendo abafada no peitoral de Tobias, querendo muito se afastar.
-Eu… Eu vou tentar. -Ela senta um pouco mais longe, limpando as próprias lágrimas enquanto o vampiro agradece mentalmente pelo espaço pessoal cedido. -Mas… Você está bem? Quem te trouxe até aqui?
-Um grupo de aventureiros te encontrou lutando contra aquele assassino e depois usaram uma magia de teletransporte em nós. Somente um deles veio com a gente pela magia, o resto ainda está vindo. -Isso assusta Tobias. Uma magia de teletransporte não é algo feito tão facilmente. -Eu também fiquei surpresa, mas aquela mulher tinha uma espécie de círculo mágico diferente. A energia do loiro mal mudou quando ela usou a magia.
-Pelo visto, desenvolveram uma magia de teletransporte mais econômica. Ainda bem. -O pai suspira. “Então o garoto veio também?” O jovem tenta lembrar da silhueta dele, mas falha.
-Ele está lá embaixo. Ele pede pra ser chamado de Amarelo Kaminari, mas é estranho. Vou pedir para ele subir.
-Não. Eu vou até lá. -Tobias põe os dois pés no chão e é segurado por Taylor.
-Não vai mesmo! Você quase morreu e ficou quase duas horas apagado! -O jovem faz uma leve careta, trocando olhares com o homem. Isso mal dura dois segundos. Ele aceita num curto suspiro e senta novamente na cama. -Laissa, chame o jovem. Tobias precisa ficar de repouso por no mínimo umas duas horas. Entendeu, garoto?
-Tá, tá bom. -Ele responde e, seus olhos encontram-se com outra pessoa, escorada na porta ao comer uma maçã, sorrindo. -Espera, vocês tão falando dele?
Taylor arqueia as sobrancelhas e Laissa vira, olhando pro jovem. Ele, meio sem graça, sorri.
-É… Eu acabei escutando. -Com os olhos coloridos, o esquerdo amarelo e o direito vermelho, o garoto, na casa dos 15 ou 16 anos, relaxa ao ver que não há mais feridas graves no homem.
Os elixires e as magias, mesmo com resistência, deram conta do recado. Apesar do semblante alegre, Taylor fica incomodado com ele. O homem não sentiu a presença do jovem em momento nenhum.
-Fico feliz em saber que está bem. Cara, você tava muito mal.
-Obrigado. Eu… Eu sequer sei como agradecer. -Tobias murmura, levantando. Dessa vez Taylor não o impede, somente se prepara para o segurar no menor sinal de fraqueza.
-Ah, mas eu sei como! -Tanto Taylor quanto Laissa trocam olhares. “Como assim ele sabe?” O pensamento cruza a cabeça de ambos. -Uns seis pães de queijo com café e tá pago! Sério, o café estava ótimo! Ainda estou com fome mesmo depois de comer horrores!
Silêncio. Eles trocam olhares, processando o pedido. Então, Tobias ri, balançando a cabeça antes de voltar a atenção para Taylor.
-Por favor, peça pra fazer mais. Eu pago os ingredientes, é o mínimo. -O jovem quase salta de alegria. O homem apenas concorda, achando graça daquilo.
-Mas eu acho melhor todos irem tomar café. Ai todos conversam. -Laissa define. Eles concordam de imediato. O garoto já virá para descer as escadas, animado enquanto Laissa para de andar, voltando a atenção para Tobias. -Inclusive, aquele cara veio te ver.
-Aquele cara? -Tobias questiona, arrepiando. Uma nova pessoa aparece ao lado do Amarelo, enrijecendo ao ver uma silhueta enorme à sua esquerda.
-Sim, aquele “cara”. -Seus olhos vermelhos focam no loiro, dando um único passo para trás. O cara, na casa dos 50 anos com quase dois metros de altura, parece estranhar o garoto. Contudo, olhando para Tobias, surpreso, a coloração rubi deles diminui, como se relaxassem. -Como você está? Luizen teve o maior trabalho para fechar seus ferimentos. Continua resistente a magia de sangue alheia e a elixires.
-O morceguinho sempre se machuca muito, é impressionante. -O loiro quase salta novamente. Encarando a dona da voz, retirando um pirulito da boca ao arquear as sobrancelhas. Tanto ela quanto o homem possuem cabelo preto, pele branca e vestem uma espécie de terno, também preto. “Eles são o que? Uma dupla de preto?” -Que foi? Perdeu algo?
-Não, não. -Ele balbucia, tentando entender aquela reação. Pelo visto a invisibilidade era normal por ali.
-Bem vindo, Alucard. -Taylor estende a mão e eles se cumprimentam. O loiro reconhece o nome. -Bem… Melhor irmos tomar café. Temos muita coisa para discutir.
“Espera, Alucard!?” O loiro treme na base, reconhecendo aquele nome, famoso por todo o continente.
-Um Numerado realmente atacou a carruagem? -O homem pergunta.
-Sim. Você conhecia eles? -O grupo começa a descer para a sala. Alucard e Taylor permanecem do lado esquerdo e direito de Tobias, ainda desconfiados na capacidade dele de andar. Queriam manter ele deitado, mas… Decidiram ceder em prol do café.
-Os Numerados? Sim. Agora, o que o garoto aqui descreveu? Não. -O homem de olhos vermelhos fita o seu antigo pupilo, descendo as escadas escorado no corrimão. Aparentava estar bem, bem até demais para quem quase morreu horas atrás. -Porém… Mobilizar eles não é pouca coisa. São caros, caros demais para um nobre de quinta pagar.
-Resumindo, quem fez isso foi alguém com muito dinheiro. -Taylor engole um palavrão. Laissa apenas cerra os punhos, mantendo a face doce ao esconder sua indignação. Ela seria usada como uma arma contra seu próprio pai caso fosse raptada.
Se a estranha figura não tivesse chegado no último momento, as coisas não teriam terminado bem.
-E eu já tenho ideia de quem seja. -Todos voltam a atenção para Luizen, jogando o palito do pirulito numa lixeira perto da porta como se marcasse uma cesta. -O terceiro príncipe não estava se movendo contra Taylor, Alucard?
-Estava. -A informação faz o homem arregalar os olhos, encarando seu amigo de olhos vermelhos. -Meu maior motivo de ter vindo aqui foi esse. Bem, estava com um pressentimento ruim também. Deus teve misericórdia.
-Não faz sentido. Por que eu seria o alvo? Ainda mais após a queda do Império! -Taylor exclama, mal conseguindo manter contato visual com Alucard, sentando na outra ponta. Luizen senta ao lado dele, enquanto Laissa fica perto de seu pai, ambas do lado direito da mesa. Tobias e Amarelo ficam do lado esquerdo, encarando a comida que as empregadas prontamente trazem. A esposa de Taylor não estava ali. -Por favor, façam mais pães de queijo e café. Se minha mulher voltar, digam para ela que Alucard está aqui.
-Sim senhor. -A aparente chefe das empregadas declara, retirando-se do local.
-Não sei exatamente o motivo… É como se ele estivesse tentando mudar os pólos de poder do antigo Império. A capital está totalmente tomada por Caio, enquanto o resto… Bem, caiu nas mãos dele também. -Taylor coça a cabeça, preocupado. As servas trazem cestas de comida. Os olhos do Amarelo brilham ao ver a garrafa de café sendo posta na sua frente. -Os reinos estão se preparando para uma guerra, até as Relíquias estão sendo ameaçadas de serem usadas.
-Eles estão querendo usar as relíquias restantes para derrubar Caio e tomar o antigo Império ou o que? -Tobias pergunta, meio assustado. As relíquias não eram brincadeira. O uso delas sempre resultava em destruições em massa.
-Provavelmente é isso mesmo. Ainda mais que tivemos problemas nos nossos reinos também. -Alucard enche uma xícara de café para si mesmo e para a sua guarda, aceitando de bom grado. Kaminari fica meio agitado ouvindo aquilo. -Precisamos fazer algo. Bem, ao menos eu. Não sei se você ouviu, mas Caio está matando os nobres dos reinos.
-Ouvi sim. Ele começou isso depois de derrubar o Imperador, não? -O homem concorda, deixando o pai de Laissa ainda mais nervoso. Ele mesmo não é um nobre, contudo, Alucard é um. Além disso, havia muitos nobres que o ajudavam no Reino de Kanh. -Mas ele não tinha parado?
-Parou por causa de Guilherme. E… Bem, aparentemente ele vai ir atrás dos líderes das facções criminosas antes de continuar. -Os dois se encaram. Taylor suspira, coçando a cabeça com ainda mais força. Aquilo estava tornando-se um problema imenso. -Sei que acabamos de descer, porém isso deve ser uma conversa… A sós.
Laissa não gosta nada disso. Abrindo a boca para contestar, ela para ao ver seu pai levantar a mão, impedindo-a. Luizen permanece comendo. Tobias finge não se importar.
-Certo. -Ele levanta, respirando fundo antes de olhar para Laissa e Tobias. -Eu já volto. Comam um pouco e descansem. Hoje… Foi um longo dia.
***
-Eu ainda não acredito que ele realmente foi ter aquela conversa a sós com Taylor! -Luizen quebra o silêncio da mesa.
Todos estavam há quase trinta minutos calados, apenas comendo.
Pelo menos, a barriga estava cheia.
-Também estou chateada. -A loira declara, dando uma leve olhada pro Amarelo, comendo um pão de queijo em duas mordidas antes de virar a xícara de café, já pegando outro. Ele está comendo desse jeito desde quando começou. As empregadas estão assustadas com o quanto o jovem está comendo. Definitivamente a barriga dele não estava cheia. -Sempre ajudo em tudo o que posso e me exclui logo no assunto importante? Que ódio!
-Juro! -Elas suspiram em um desabafo feminino. Tobias fica calado, deslocado, com a cabeça em outro lugar. O homem que salvou sua vida está conversando com quem o sustentou durante todo esse tempo sobre uma ameaça à família deles. O problema era até para eles mesmos, não tinha como apenas Taylor ou Alucard terem problemas com isso. Sua testa franzia, doendo. Ele queria andar sozinho pra pensar, sair dali para refrescar. -Amarelo, como você derrubou um Numerado?
-Enh? -O Amarelo bate no peito, engasgando com a comida. Então, engolindo ela de uma vez, volta a atenção para Luizen, em choque com o que acabou de presenciar. -Ah! Eu dei um murro nele! Ele estava muito focado no… Tobias, Tobias né? Aí ele não me viu chegar. Foram dois murros na verdade. Ou… Três?
“Um murro? Pareceu mais uma bomba de aura.” O olhar de sua amiga se encontra com o dele, em choque. Pelas memórias de Tobias, conseguia ver o que aconteceu e aquilo definitivamente era muito poderoso para ser apenas um murro.
-O que vocês faziam por aquela região? -Laissa pergunta, outra vez interrompendo o lanche do Amarelo. -Você disse que estavam viajando, certo? Você, Evan, Yumi e Bleeim, são esses os nomes dos seus companheiros, né?
-Isso! Eles devem chegar de noite! -O jovem exclama, enfiando a mão no bolso ao pegar uma espécie de bússola. -Eles sabem onde estou por causa disso! Todos os membros do nosso grupo carregam uma, chamamos de Bússola Multiversal! O nome soa legal, eu que escolhi, e ela funciona no continente inteiro! Ainda é resistente e consegue enviar mensagens, é ótima!
-Espera, você consegue enviar uma “mensagem” para eles agora? -Amarelo fica ainda mais empolgado para exibir o item.
Sem responder diretamente, ele clica nos botões laterais da bússola, menor que a sua mão, colocando-a na mesa. Todos se aproximam para vê-la melhor conforme os dois ponteiros, um vermelho e outro preto, giram pela estrutura, fazendo o vidro dela brilhar.
-Yellow na chamada! Bleeim, como está a viagem!? Nosso colega aqui acordou e quer falar com você! -”Eu quero!?” O item é empurrado na direção de Tobias, enrijecendo dos pés a cabeça. -Precisa ficar acanhado não! É só falar que a mensagem vai ser gravada e eu envio!
-É… Eu só queria agradecer. -O vampiro balbucia, tendo o olhar de todos na sala sobre si. Até as servas então olhando. -Estou ansioso para agradecer vocês presencialmente. Obrigado pelo resgate, espero conseguir retribuir esse favor.
-Ah mas já retribuiu! Essa comida tá ótima! -No instante seguinte, a bússola voa até ela, sendo agarrada. -Sério, essas servas merecem um aumento! Yellow Kaminari desliga!
“Yellow Kaminari.” Os três trocam olhares. Ele havia acabado de traduzir o proprio apelido para outra lingua? O jovem pressiona o botão à direita da bússola, vibrando antes de desligar sua luz. Todos permanecem encarando-a, como se temessem algo e, ela brilha.
-Que bom ouvir isso! -A voz que vem da bússola faz Laissa, Luizen e Tobias reagirem. A loira sorri, achando aquilo incrível conforme a de cabelo preto fecha a cara, tentando rastrear a aura. Tobias tem a reação das duas. Estava impressionado e assustado. -Bem, já vou adiantar minha apresentação. Me chamo Bleeim e sou o líder dos Defensores. No momento estamos indo para o Reino de Kanh, devemos chegar ao anoitecer. Caso consigam arranjar um lugar para dormirmos, seríamos muito gratos. Yellow, coma com a boca fechada e não se afaste deles, Evan está rastreando a aura dos assassinos, eles podem tentar algo novamente. O carroceiro não resistiu. Estamos levando os cavalos. Bleeim desliga!
Laissa desvia o olhar para baixo. Mesmo já tendo contado para Taylor sobre a traição de Edgar, aquilo ainda parecia irreal. Ela o via todos os dias e ele a levava para a escola, para os cursos, para todos os lugares durante quase toda a sua vida.
Os olhos de Tobias pesam. Mais uma morte para suas mãos.
-Pode… Pode falar com ele que tem um hotel aqui perto, vai ficar tudo por minha conta. -Tobias declara após alguns segundos. Yellow não entende exatamente o motivo do clima pesar. Concordando, o lado direito do item estrala no toque.
-Fala Bleeim! Tobias vai arrumar um local para vocês. Pode seguir a bússola que tá tranquilo. Yellow desliga!
-O que é esse “Yellow desliga”? -Luizen arqueia as sobrancelhas. O jovem sorriu com a pergunta, quase como se estivesse esperando por ela.
-Falo porque acho daora. -A mulher estreita os olhos, balançando a cabeça antes de voltar a beber café. Laissa apenas sorri, levantando ao colocar ambas as mãos na mesa. -E eles adotaram! E usamos pra ter certeza que a mensagem acabou.
-Que tal passarmos lá no hotel? Eu mostro os quartos disponíveis e separo, o que acha? -Laissa sugere, o Amarelo parece gostar da ideia e Tobias abre a boca, paralisando quando a loira aponta para ele. -Nem ouse. Você fica des, can, san, do. No máximo, uma saída pra desestressar a cabeça. Me entendeu?
O vampiro volta pra cadeira, murchando como uma flor. Luizen ri dele, abaixando as mãos como se dissesse “calma” e suas orelhas e face queimam.
“Olha só, já ta na coleira?” A voz de sua irmã de consideração ecoa em sua mente, não podendo ser escutada pelos outros. Isso o faz arder em raiva.
-Então vamos? -Ela propõe e Yellow levanta, despedindo das servas antes de seguir Laissa, dando um tchauzinho para Tobias.
-E não deu tchauzinho pra mim. Olha só em, você tá na mira. -O vampiro apenas cerra os olhos, levantando ao pegar os talheres, pratos e as cestas onde estava a comida. Bem, ao menos onde estava segundos atrás. -Ei, me dá uma parte aí!
Ele entrega parte das coisas sujas e, assim que as servas chegam para pegá-las, o vampiro dispensa elas num movimento de mão, seguindo em direção da cozinha junto da mulher.
-Está conseguindo sentir sua aura? -Tobias, enxaguando a louça, faz uma xícara voar no ar com sua energia, uma prova de que já estava relativamente bem. -Que alívio. Pensei que os danos seriam maiores. O que raios foi aquilo? Era como se um touro tivesse te acertado.
-Bem… O Numerado parecia ter uma habilidade relacionada a gravidade. Não usava magias nem votos, porém era definitivamente um monstro na quantidade de aura e na força física. Ele tinha uma adaga que funcionava como um catalisador, chuto ser a arma mágica dele. -O vampiro ainda sente um gosto amargo na boca. Apesar de ter sobrevivido e de estar já se recuperando, tanto por causa de sua natureza quanto pela ajuda de Luizen, que o ensinou a usar magia de sangue, a derrota não descia bem.
-Você até hoje não conseguiu controlar uma arma? -A pergunta é como uma flechada. Coçando o nariz, ele se controla muito para não revidar na mesma moeda. -Sério, eu sei que você tá focado em ser um cavaleiro e tals mas… É o básico para os magos?
-Desculpa, oh Arquimaga. -Luizen até para de ensaboar os objetos, cogitando dar um cascudo nele. -Infelizmente, sou melhor com magias. Minha lâmina de aura é horrível e materializar ela no geral é muito difícil. Sou melhor no lançamento de magias.
-O que a calça tem haver com a cueca? Você que não treinou. Conversa pra boi dormir em. -Ela retruca, fazendo um lampejo atravessar a mente dele. Nele, a memória dos dois tentando invocar suas armas de aura passa em um flash, denunciando o desinteresse dele naquilo. O jovem somente odiava fazer aquilo.
Tobias tinha uma sensação ruim ao usar sua arma mágica, mas nunca conseguiu entender o motivo. Alguns borrões de memória o incomodavam, como se… Aquilo fosse o motivo de algo ruim.
-Isso faz, sei lá, oito anos!? -Protestando, tentando parar de pensar no passado que mal conseguia lembrar, sua irmã o soca.
-E você não mudou nada. Continua fanatico pelas magias, mas tudo que é físico parece repulsivo. -O vampiro começa a se irritar. Ele havia quase morrido e é assim que o apoio moral dela viria? -Nem venha com esses pensamentos, eu estou certa.
-Dá pra parar de ler minha mente? -O pedido, raivoso, é acompanhado por um olhar de deboche.
-Não quando você está gritando eles. Esqueceu como eu faço isso? Pela aura? Que reflete seus sentimentos e pensamentos? -Terminando de lavar a louça, ela taca um pouco de água em Tobias, respirando fundo antes de limpar as próprias mãos. Isso faz os olhos de Luizen brilharem em um intenso rosa, assim como seu cabelo preto ondulado, revelando sua verdadeira aparência por um único instante antes de retornar para a ilusão. -Relaxe, eu… Só estava preocupada. Vou parar de te amolar, viu? Se prepara que… Acho que essa semana vai ser dura.
-Obrigado? -Ela ri, dando tchauzinho ao andar em direção a saída da casa. Tobias observa sua “irmã” ir embora, indo para sei lá onde enquanto pensa no motivo dela esconder sua verdadeira aparência. -Bem, vampiros nobres devem chamar atenção.
Evitando pensar na própria raça, Tobias olha para o céu pela janela da cozinha, alaranjado. “Está anoitecendo.” Sua atenção volta para a porta, lembrando do aval de Laissa para uma caminhada. Em situações normais, a última coisa que o jovem iria querer seria uma caminhada. Ainda mais depois dos ferimentos que quase o mataram.
Contudo, havia algo chamando-o. Havia alguma coisa falando para o jovem fazer uma caminhada.
Seus ferimentos não estavam doendo, seu núcleo já estava sendo restabelecido, ele havia comido e não estava sonolento. A ideia de uma caminhada estava muito atraente. E, por algum motivo, pensava em Marco. “Dê notícias quando voltar”, o vampiro suspirava ao coçar a cabeça, sem ideia de como deveria contar aquilo.
-Finalmente uma vantagem de ser um vampiro… -Cedendo, Tobias decide ir. Uma caminhada rápida Ele retornaria antes de Alucard e Taylor acabarem a conversa deles. Ele era bem resistente, então… Não estava com tanto medo de desmaiar no caminho. Apesar do ferimento em seu peitoral ainda doer, algo… Algo estava chamando-o.
Então, saindo da enorme casa, o jovem direciona-se pela estrada de pedras, andando em direção ao rio próximo do reino. Sempre andava ali quando queria pensar. Foi nesse mesmo rio que ele foi resgatado, às vezes isso o fazia refletir porque ainda estava vivo.
Andando até os portões de aço imbuídos de magia do Reino de Kahn, o sonolento guarda apenas gesticula com a cabeça, permitindo-o passar. Era uma saída menor, então não havia muito fluxo de pessoas. Todos os guardas dali conhecem Davi, então é fácil circular pelo local sem grandes problemas.
O jovem ultrapassa a ponte, vazia. Sequer há mercadores ou cidadãos passando por ali. Deve ser por causa da sexta-feira.
Seus olhos avistam o volumoso rio, metros à frente. Aproximando, Tobias caminha na beirada dele, analisando a água que reflete a luz das estrelas e da lua, limpa. Um sentimento estranho invade-o, tanto de receio quanto de admiração.
Foi nesse rio que Alucard o encontrou, logo após… De sua fuga para não morrer. O motivo? Não tinha certeza. Os Iluminados caçavam e matavam os vampiros.
Um gosto amargo invade sua boca. Pensar nos Iluminados o incomodava. “O que deu em mim para vir aqui hoje? O plano não era ir atrás de Marco?” Tobias na verdade nem sabia onde o amigo morava. Decidiu continuar a caminhada, ainda sentindo algo chamar sua atenção.
Ele começa a procurar por algo nas beiradas do volumoso rio, sentindo… Um cheiro.
Um cheiro que ele odiava.
-Esse cheiro… -O murmuro é acompanhado por uma checagem mais precisa do ar, o que faz o jovem fechar a cara. -Sangue?
-Socorro! -Um grito.
Os olhos de Tobias se tornam vermelhos, procurando pela voz. Antes mesmo de pensar em algo, seu corpo já está correndo. Há alguém ferido ali.
-Socorro! Deus, socorro! Alguém! Me ajuda!
Ele avista uma pessoa. Não, ele avista uma mulher de joelhos, agarrada no corpo de um jovem, ruivo, com sangue por todo o corpo. O cabelo loiro dela está sujo pelo vermelho. Sua roupa rasgada e face repleta de ferimentos.
A mente de Tobias acelera. Foram roubados? Mas no rio!? Caíram no rio e saíram de lá!? Em meio aos pensamentos, a mulher avista-o, em prantos. O jovem para ao lado da dupla. Tentando entender o que estava acontecendo, a aura dela torna-se cada vez mais instável e a respiração do ruivo cada vez mais fraca.
-Ele… Ele está parando de respirar! Eu gastei toda a minha aura mas não consegui ajudar ele! -Ela agarra a roupa de Tobias, voltando o olhar para a mulher enquanto seus instintos berravam. -Ajuda ele! Eu faço qualquer coisa! Por favor!
O jovem cerra os dentes, tendo um péssimo pressentimento. Não sabia o motivo, muito menos o porquê. Contudo, os olhos dele permanecem nos olhos azuis dela, desesperados.
E, a silhueta do jovem vampiro desesperado diante de Taylor, retorna.
-Eu vou tentar. -É a única coisa que sai dentre seus dentes. Se soltando, ele analisa o ruivo, sem respirar. Havia ferimentos de aura, dentes e cortes em seu corpo e roupa branca. Pondo a mão esquerda no peitoral dele e a direita no pescoço, sem pulso, seu sensor de energia denuncia o quão baixa a aura dele está. Alguma magia ainda estava funcionando nele, escondendo algo. Porém, aquilo era problema pra depois.
Não estava respirando, tinha pouco tempo.
Injetando o que ainda possui de energia no núcleo dele, Tobias inicia uma magia de sangue ao virar o corpo do ruivo. Desconfiava que tinha engolido água.
Ele reage.
Um grunhido, um engasgue. A aura dele reage junto da do vampiro, sendo violentamente expulsa junto da água pela boca.
Ele continua a cuspir água, custando a respirar conforme o estômago embrulha. A magia de sangue do vampiro foi absurdamente potente. Havia funcionado. Havia funcionado até demais.
-O que!? Onde, onde estamos!? -O indivíduo é posto de costas no solo, com os olhos castanhos arregalados. Sua magia de sangue termina de remendar os ferimentos internos, o que o alivia um pouco. Aparentemente, havia resolvido o maior dos problemas do ruivo. -Quem… Quem é você? 003, esse desgraçado encostou em você!?
O coração do vampiro aperta. Seus olhos voltam-se para a loira, ajoelhando ao lado do ruivo ao pegar na mão dele.
-Ele vai nos ajudar, fique calmo! -A mulher está chorando. Mas, o coração de Tobias acelera. “003?” -Por favor, veja se ele está bem e ajude os outros também! Eu vou fazer qualquer coisa que você pedir, só salve eles!
-Espera… Outros? -Antes de continuar a pensar, os olhos dele voltam-se para o lado esquerdo do rosto dela, lentamente sendo alterado no enfraquecimento da magia de ilusão nela, cedendo.
Descascando até desaparecer, a magia revela uma tatuagem. E é uma numeração.
002. É uma tatuagem.
Ela se desfaz, transformando-se em barras vermelhas.
Tobias congela. Não conseguia acreditar nos próprios olhos.
-Não podemos esperar! Eles vão morrer! -Ela implora, tentando retirar o homem de seus pensamentos. A ação falha, o jovem continua pasmo. “Não, eu estou vendo coisas. Eu não… Eu não vi isso.” -Me leve como uma escrava! Faça o que quiser comigo, mas salve eles, por favor!
“Reage!” Mordendo a própria língua, Tobias expande seu sensor de aura e, sente mais duas pessoas ali. Voltando os olhos para eles, o cavaleiro avista elas, inconscientes. Uma jovem estava caída mais a frente do grupo. Estava desacordada e com um corte mal cicatrizado no meio de seu peitoral exposto, ainda com sangue junto de marcas de mordida pelos braços e pernas.
E, atrás dela, um garoto de cabelo branco está desmaiado.
Tobias arrepia. Ele jamais poderia esquecer daquela aparência.
A tatuagem em seu rosto, vendo através das barras vermelhas, treme quase sem energia.
050.
Sua mente finalmente lembra-se da loira. Ela que saltou para segurá-lo quando o mesmo caiu no portal, assim como aquela jovem, que os encarava do outro lado.
Quem estavam diante dele eram Numerados.
