
Ferox
Capítulo 15 — 15-Loqui
Depois de alguns minutos, todo o ambiente tomado pelos fungos começou a morrer. As veias secaram, as crostas descascaram e caíram pelo chão, e os infectados que ainda restavam pelo shopping morreram aos poucos.
Junto de Dante, o grupo saiu escondido pela saída de emergência. Assim que se afastaram, viram, ao longe, o posto de gasolina sendo consumido pelas chamas.
Axel observou o incêndio por alguns segundos e falou em voz baixa, como se já soubesse a resposta.
Axel — Zaio...
Ajax olhou para ele, entendendo imediatamente.
Ajax — Será...?
Axel — Com certeza.
Dante soltou um longo suspiro.
Dante — O problema agora é descobrir onde aquele garoto está... Espero que esteja bem.
Marie esfregava as mãos, nervosa. Minerva permanecia completamente pálida, sem dizer uma única palavra, ainda tentando acreditar em tudo o que tinha visto.
Axel voltou a perguntar:
Axel — E agora? O que a gente faz? Onde o Zaio pode estar?
Dante coçou a barba antes de responder.
Dante — Eu realmente não sei... Mas conheço aquele idiota. Assim que puder, ele vai dar um jeito de avisar que tá vivo.
Ajax e Marie olharam para Dante como se aquilo fosse um absurdo.
Axel, porém, apenas concordou.
Axel — O Dante tá certo... Sempre que ele faz alguma merda... ou alguma merda acontece com ele... a primeira pessoa pra quem liga sou eu. Não se preocupem.
Minerva permaneceu calada, olhando para as próprias mãos, completamente perdida em seus pensamentos.
Corte
Zaio desperta com o corpo inteiro queimando de dor.
Ele tenta se levantar, mas o próprio corpo o obriga a voltar a se sentar. Respira fundo, confuso, olhando ao redor. O lugar era um prédio abandonado.
Com esforço, aproxima-se de uma janela e observa a cidade lá embaixo.
Zaio — ...Acho que eu devo ter voado até aqui ontem.
Ele tenta lembrar do que aconteceu.
De repente, sua expressão muda.
Zaio — Porra... eu matei a Cypsa...
Ele abaixa lentamente a cabeça.
Zaio — Ela nem parecia mais a mesma Cypsa naquela hora...
Balançando a cabeça, começa a descer as escadas do prédio.
Ao chegar à rua, olha ao redor tentando reconhecer onde estava.
Zaio — Merda... tô sem celular. Como é que eu vou ligar praquele nerd idiota?
Ele observa a placa com o nome da rua.
Seus olhos brilham por um instante.
Zaio — Essa rua fica perto da casa da Marie!
Zaio começa a caminhar pelas calçadas, tentando se esconder por estar sem camisa.
Depois de alguns minutos, chega à casa dela e toca a campainha.
A porta se abre lentamente.
Marie, ainda sonolenta, boceja antes de olhar para frente.
Marie — Ah... que m...
Ela arregala os olhos.
Marie — ZAIO?!
Zaio sorri sem graça, olhando para o chão.
Zaio — Eh... oi... Será que você pode ligar pro Axel...? Heh...
Marie solta um suspiro de alívio.
Marie — Ainda bem que você tá vivo... Entra. Vou ligar pra ele... e também vou arrumar uma camisa pra você.
Zaio entra e se senta em uma cadeira da varanda.
Fica olhando para o teto, perdido nos próprios pensamentos. As queimaduras, apesar de praticamente invisíveis, pareciam arder até sua alma.
De repente, sente algo roçar em sua perna.
Era um gatinho.
Zaio sorri de leve.
Zaio — E aí, carinha... Só um gatinho mesmo pra melhorar meu astral numa hora dessas.
Depois de alguns minutos, Marie voltou e jogou uma camisa no colo de Zaio.
Marie — Liguei pro Axel. Ele já tá vindo. E veste isso aí antes que algum vizinho chame a polícia.
Zaio deu uma risada fraca.
Zaio — Valeu...
Ele vestiu a camisa devagar, ainda sentindo o corpo inteiro arder.
Marie puxou outra cadeira e se sentou de frente para ele.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
Então ela quebrou o silêncio.
Marie — Me conta... o que aconteceu com a Cypsa?
Zaio abaixou a cabeça.
Sua voz saiu quase como um sussurro.
Zaio — ...Eu matei ela.
Marie fechou os olhos por um instante. Era exatamente a resposta que imaginava, mas ouvi-la doía muito mais do que apenas suspeitar.
Ela respirou fundo antes de perguntar.
Marie — ...E como você tá?
Zaio olhou para as próprias mãos. As queimaduras ainda ardiam, mesmo sem deixar marcas visíveis.
Ficou alguns segundos em silêncio.
Zaio — Eu... achei que ia estar destruído.
Marie permaneceu quieta, apenas ouvindo.
Zaio — Ela morreu... era nossa amiga.
Ele apertou as próprias mãos.
Zaio — Eu sei que isso devia estar acabando comigo por dentro...
Sua voz começou a falhar.
Zaio — ...Mas não tá.
Ele abaixou ainda mais a cabeça.
Zaio — Eu só...
Fez uma pausa.
Zaio — ...me sinto vazio.
O vento balançava as árvores da rua enquanto ele procurava as palavras certas.
Zaio — Eu sei que o que aconteceu foi horrível. Eu sinto culpa por isso...
Ele respirou fundo.
Zaio — Mas a tristeza... simplesmente não vem.
Fechou os olhos por um instante.
Zaio — E sabe o que mais tá me assustando?
Marie o encarava atentamente.
Zaio — Não é o fato de eu ter matado a Cypsa...
Ele voltou a olhar para as próprias mãos.
Zaio — É perceber que eu não consigo sentir a dor que eu acho que deveria sentir.
O silêncio voltou a dominar a varanda.
Marie permaneceu alguns segundos pensando antes de responder.
Marie — Zaio... eu não acho que isso signifique que você não se importava com ela.
Ela apoiou os cotovelos nas pernas.
Marie — Cada pessoa reage de um jeito diferente quando passa por alguma coisa muito pesada. Às vezes a gente nem consegue entender o que tá sentindo na hora.
Ela sorriu de forma discreta.
Marie — A Cypsa era nossa amiga... mas vocês dois nunca foram realmente próximos. Talvez por isso a tristeza não tenha vindo da forma que você imaginava.
Zaio continuou em silêncio.
Marie — Em vez de sentir a perda dela... você tá preso na culpa por ter sido obrigado a fazer aquilo.
Ela fez uma pequena pausa.
Marie — E culpa não é a mesma coisa que tristeza.
Zaio levantou o olhar pela primeira vez desde que a conversa começou.
Marie continuou.
Marie — Você não queria matar ela.
Ela sorriu de leve.
Marie — No fim... você só fez o que precisava fazer pra continuar vivo.
Zaio respirou fundo.
Ainda parecia distante.
Depois de alguns segundos, falou bem baixo.
Zaio — ...Eu tô com medo.
Marie franziu levemente a testa.
Zaio — Não é de morrer...
Ele olhou para a rua.
Zaio — É de vocês morrerem por minha causa.
Sua voz voltou a falhar.
Zaio — Antes, eu achava que essa maldição só ia acabar comigo...
Ele apertou o tecido da própria camisa.
Zaio — Mas agora todo mundo que tá perto de mim entra nessa guerra.
Zaio fechou os olhos.
Zaio — Eu já me sinto culpado por ver vocês envolvidos nisso tudo.
Ele respirou fundo.
Zaio — Se algum de vocês morrer...
A frase travou na garganta.
Zaio — ...eu nunca vou conseguir me perdoar.
Marie levantou da cadeira.
Sem dizer nada, caminhou até ele.
Colocou delicadamente a mão sobre sua cabeça e bagunçou de leve seus cabelos.
Zaio ergueu os olhos, surpreso.
Ela sorriu.
Marie — Você pensa demais, sabia?
Zaio não respondeu.
Marie — Escuta uma coisa...
Ela manteve a mão sobre sua cabeça.
Marie — A gente tá aqui porque escolheu estar.
Marie — Ninguém foi obrigado a lutar do seu lado.
Ela apontou para o peito dele.
Marie — Se qualquer um de nós estivesse no seu lugar... você faria exatamente a mesma coisa.
Zaio ficou em silêncio.
Marie — Então para de tentar carregar tudo sozinho, seu idiota.
Ela deu um sorriso divertido.
Marie — Deixa a gente carregar um pedacinho desse peso também.
Zaio abaixou a cabeça outra vez.
Mas, dessa vez...
Um pequeno sorriso apareceu.
Zaio — ...Obrigado, Marie.
Nesse instante, a campainha tocou.
Do lado de fora, uma voz conhecida gritou.
Axel — MARIE! CHEGUEI!
Ela deu uma risada.
Marie — Pronto. Agora melhora essa cara.
Ela deu um tapinha no ombro dele.
Zaio — AI, PORRA!!
Marie arregalou os olhos e deu um passo para trás.
Marie — AI! DESCULPA! EU ESQUECI!
Zaio massageou o ombro, fazendo uma careta.
Zaio — Caralho... tá doendo até a alma...
Marie não conseguiu segurar a risada.
