Ferox Cap. 10
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Ferox

Capítulo 10 — 10-Conventus

Cypsa abaixa o braço lentamente e olha para seus amigos com medo. Em um tom nervoso e assustado, ela diz:
Cypsa — Eu posso explicar... Eu posso fazer isso desde pequen—
Marie vai até ela. Com um sorriso que ainda treme levemente pelo susto, pega sua mão e a olha nos olhos.
Marie — Antes de qualquer coisa... muito obrigada. Você nos ajudou. É isso que importa...
O grupo ainda está paralisado pelo choque. Axel está coberto de sangue e tenta se limpar, olhando para os próprios braços com nojo daquele sangue de monstro em seu corpo. Ajax, ainda no chão, treme quase tão branco quanto papel. Depois do choque, ele tenta ajudar Axel, entregando uma blusa nova que estava em sua mochila.
Minerva, que ainda revê a cena em sua mente, se aproxima de Cypsa e Marie e fala em seu tom baixo e levemente assustado:
Minerva — É melhor sairmos daqui... Se alguém nos vir, pode ser o nosso fim. Vamos para algum lugar longe daqui. Pode ser na minha casa, já que meus pais só vão voltar mais tarde.
Marie, tentando absorver tudo aquilo o mais rápido possível, respira fundo e responde:
Marie — É melhor mesmo... Não quero nem imaginar alguém nos vendo assim. Fala para os garotos que vamos para sua casa, ok?
Minerva — Ok, pode deixar.
O grupo se levanta e segue para a casa de Minerva. Ninguém diz uma palavra durante o trajeto. O único som era o das próprias passadas. Axel ainda limpava o sangue seco dos braços, enquanto Ajax olhava para todos os cantos da rua, como se esperasse outra criatura aparecer.
Depois de chegarem, o grupo se senta e Cypsa começa a se explicar:
Cypsa — Bem... Desde os meus oito anos eu descobri esses poderes brincando no quintal de casa. Eu escondo isso há muito tempo. Nem minha família sabe disso. E agora estamos aqui...
Eu só peço que, por favor, não contem a ninguém. Tenho muito medo do que pode acontecer comigo e com meus pais. Eu não quero nem imaginar o que o governo faria com alguém com um poder como o meu...
Axel entende aquele sentimento. Não por vivê-lo, mas por conhecer alguém que passa pela mesma angústia. Então ele responde:
Axel — Não se preocupe. Você nos ajudou... Não temos motivo algum para fazer isso. Meio que entendemos sua situação em certo nível.
Cypsa olha para Axel, curiosa.
Cypsa — Como assim me entendem? Vocês têm poderes como eu?
Axel ri levemente da ideia e balança a cabeça.
Axel — Não mesmo. Mas conhecemos alguém que sabe muito bem como isso é.
Cypsa o encara surpresa.
Cypsa — Alguém com poderes que vocês conhecem? Isso é sério?
Marie ri da reação dela.
Marie — Conhecemos sim. E eu diria que ele é um idiota com poderes.
Um leve sorriso surge no rosto de Cypsa.
Cypsa — Nossa... Seria legal conhecer essa pessoa. Conversar sobre nossas experiências...
Ajax, que estava quieto até então, resmunga em voz alta:
Ajax — Como se o Zaio conseguisse manter uma conversa...
Todos o encaram em reprovação. Cypsa então pergunta:
Cypsa — Zaio? Esse é o garoto que tem poderes?
Ela olha para Ajax com curiosidade. O garoto fica um pouco nervoso com a atenção recebida e responde:
Ajax — Ah... é. Um amigo do nosso grupo. Ele mora longe agora. Nós visitamos ele toda semana.
Cypsa parece animada.
Cypsa — Não querendo incomodar, mas será que posso ir com vocês?
O grupo olha para Axel. Ele pensa por um instante antes de responder:
Axel — O Dante não acharia ruim, eu acho. Eu vou para lá amanhã, mas a Marie e os outros vão depois de amanhã. Aí você conversa com eles e dá tudo certo.
Cypsa sorri.
Cypsa — Beleza! Eu vou adorar ir com vocês. Bem, eu vou indo para casa. Minha mãe vai reclamar se eu chegar tão tarde. Hihi. Até amanhã, gente!
O tempo passa.
Agora Ajax, Marie, Minerva e Cypsa chegam à casa de Dante. Marie toca a campainha, e quem atende é Axel. Ele convida o grupo para entrar e os leva até os fundos da casa.
Ali estão Zaio e Dante treinando. Assim que vê os cinco chegando, Dante dá uma rasteira em Zaio, fazendo-o cair de cara no chão. Em seguida, ele olha para Cypsa e fala em seu tom entediado e monótono:
Dante — Então você é a nova pirralha com poderes, ahm? Prazer. Me chamo Dante. E essa coisa aí no chão é o Zaio.
Axel ri.
Axel — Então, Zaio, essa é a nossa nova amiga, Cypsa. Seja educado, por favor.
Zaio resmunga, senta-se no chão e olha para ela.
Zaio — E aí? Sou o Zaio. Prazer.
Cypsa o observa e dá uma leve risada.
Cypsa — Então você é o tal Zaio...
Ela o analisa de cima a baixo e sorri.
Cypsa — Agora entendi o que a Marie quis dizer com "olheiras de panda". Prazer, Cypsa. Espero que possamos ser amigos.
Zaio lança um olhar irritado para Marie antes de responder:
Zaio — Eu durmo super bem. Essas olheiras são genética, tá?
Cypsa ri novamente.
Cypsa — Para estar desse jeito, é uma genética bem forte.
Dante ri e dá um leve chute nas costas de Zaio.
Dante — Finalmente alguém para calar a boca do Zaio com respostas boas.
Seu tom fica mais sério.
Dante — Agora, mudando um pouco de assunto, Cypsa...
Você também é alguém com poderes. O que mais me intriga nessa história é que seus poderes não são como os do Zaio, que apareceram por um motivo lógico.
Você simplesmente nasceu assim.
Eu não sou bom com apostas, mas isso não aconteceria nem se você nascesse dez vezes.
Cypsa abaixa um pouco o olhar. Sua voz sai calma, mas carregada de nervosismo.
Cypsa — Eu sei o quanto minha história deve parecer estranha. Inclusive para o senhor, que já precisa lidar com alguém que tem poderes e cuja existência é conhecida por forças maiores.
Mas eu realmente não faço ideia do porquê tenho esses poderes.
Eu os descobri quando era pequena, e até hoje tremo de medo só de pensar no que pode acontecer comigo se descobrirem minha habilidade.
Se quer respostas... eu não tenho.
Acho que por isso estou aqui. Não só para tentar conectar respostas, mas também para conseguir não me sentir tão...
Ela olha discretamente para Zaio.
Cypsa — Única...
Zaio escuta aquilo e entende o peso daquelas palavras. Tentando aliviar o clima, ele responde:
Zaio — Ser único numa roleta-russa realmente é um pesadelo.
Eu não sou o melhor para ajudar, mas nesse caso eu consigo aliviar um pouco esse peso.
Cypsa sorri, agradecida.
Dante respira fundo.
Dante — Bem, Cypsa... a situação é complicada. Mas você também parece estar perdida, então não vou pressionar tanto.
Bem, eu vou entrar para tomar um banho.
Fiquem aí e não quebrem nada, fedelhos.
Mais tarde, já à noite.
Na cozinha, Axel desenha em uma espécie de diário. Zaio passa pelo local, observa o desenho e pergunta:
Zaio — Que caralho é isso?
Axel — Lembra que você mandou eu fazer anotações sobre suas transformações? Então, estou fazend—
Zaio toma o caderno de sua mão e arregala os olhos.
Zaio — CARALHO, QUE FODA!
Nossa, que desenho foda!
Isso sou eu quando tô na forma de lobão?
Axel — Claro, né, idiota...
Zaio — Pô, mano, eu sabia que tu ia mandar muito nessa função. Tu desenha pra caramba. Ficou absurdo!
Axel pega o caderno de volta. Nesse momento, Dante chega à mesa.
Dante — Olha, seus moleques. Isso aqui é só para nós três.
Ele cruza os braços.
Dante — Mas quero que vocês tenham o pé atrás com aquela garota.
Estão me ouvindo?
Axel e Zaio se entreolham, confusos, e voltam o olhar para Dante...